A professora que popularizou o tênis com papelão e palito de picolé

Helena Abreu tem 28 anos de projeto, mais de mil professores capacitados e uma missão: provar que o tênis pode chegar a qualquer escola do Brasil
Por mais de duas décadas, a professora de educação física Helena Abreu carregou raquetes, caixas de leite e palitos de picolé para escolas públicas do Rio de Janeiro. A ideia era simples e ambiciosa ao mesmo tempo: levar o tênis para onde ele nunca chegou.
O que começou em 1997, quando Helena apareceu no recreio de uma escola no Jardim Botânico com duas raquetes doadas para separar brigas entre alunos, transformou-se em um dos projetos mais criativos de popularização do tênis no Brasil. Hoje, ela estima que mais de mil professores já passaram por suas capacitações na rede municipal do Rio de Janeiro.
“Quando eu comecei a botar primeiro o tênis, depois comecei a desenvolver um pouquinho o trabalho dentro da escola”*, ela recorda. *“Como eu sou bastante criativa, botei alguns desenhinhos para colorir, desembaralhar as palavras, uma série de atividades pedagógicas para mostrar esse esporte para as crianças.”
Do Guga ao papelão
O impulso inicial veio do próprio tênis brasileiro. Em 1997, Gustavo Kuerten conquistava o mundo em Roland Garros, e Helena aproveitou a euforia para apresentar o esporte às crianças. Mas ela logo esbarrou no obstáculo clássico de qualquer projeto de popularização esportiva no Brasil: o custo.
“Você popularizar um esporte em que a bola custa muito caro, não há possibilidade”, diz ela. “Então fiquei estudando e continuei.”
A solução chegou no final de 2019: a raquete de papelão. Com caixas de leite descartadas, palitos de picolé e muito teste, Helena desenvolveu um material alternativo que custa, ao final, cerca de R$ 20 por criança incluindo raquete e bola.
“Basta ter papelão, que a gente consegue fazer. Se não tiver os palitos, a gente faz adaptado com outros materiais”, explica. “Dessa maneira, você pode multiplicar, porque vai trabalhar com o profissional de educação física e ele vai poder colocar isso em qualquer escola, de qualquer bairro, de qualquer realidade.”
Mil professores, 150 alunos só no primeiro mês
A metodologia de Helena é baseada na multiplicação: ela capacita o professor de educação física, que leva o projeto para a sua própria escola. Os cursos que ela ministra na prefeitura do Rio são gratuitos. Em 2017, chegou a treinar aproximadamente 600 professores. Com a parceria com a CBT e o Comitê Olímpico próximo às Olimpíadas de 2016, capacitou turmas em cidades como Piraí, no interior fluminense, e chegou a reunir 192 professores simultaneamente em uma única formação no Rio.
Os resultados aparecem rápido. Em sua própria escola municipal, onde atua como supervisora do projeto com um colega de educação física, 150 alunos passaram pela experiência só no primeiro mês de 2024.
“Já foram 150 alunos, por quê? É o terceiro ano, primeiro ano, segundo ano, depois quarto, quinto ano”, conta Helena. “Professor de educação física já fez o curso comigo, que é meu colega, eu supervisiono e ele faz lá com os alunos.”
Tênis em Quadrinhos: o próximo capítulo
Agora Helena prepara o que chama de nova fase do projeto. Em junho, ela lança Tênis em Quadrinhos, uma série de quatro historinhas infantis desenvolvidas em parceria com uma artista plástica.
A primeira conta a origem do tênis. A segunda, chamada Disputa, explica a diferença entre tipos de bola. Torcida ensina como se comportar numa quadra. E a quarta, A Nova Professora, é autobiográfica: Helena chega a uma escola onde as crianças dizem que o tênis é difícil e caro até descobrirem as raquetes de papelão.
“Quem é que não gosta de uma história em quadrinho?”, pergunta ela, animada. “As crianças vão ler, vão colorir. Tem caça-palavras, palavras cruzadas, a quadra para pintar, tudo para a criança conhecer o universo do tênis.”
A série traz ainda uma homenagem à maior tenista da história do Brasil: Maria Esther Bueno, campeã de Grand Slam na década de 1960, aparece na primeira história.
Helena não esconde a ambição. Ela quer que a CBT e a ITF (Federação Internacional de Tênis) conheçam e chancelam o projeto não por dinheiro, mas por legitimidade.
“O meu objetivo é a chancela. Se eu for procurar algum apoio, ah, ela tem a chancela da CBT, ou da ITF. E a ITF saber que existe um material alternativo lógico, grandes centros não vão precisar, mas na África, na Ásia, em outros lugares, no Brasil, na América do Sul, sai mais em conta você fazer o material que você mesmo constrói.”
Em 2019, Helena levou o projeto ao Rio Open, onde promoveu a montagem de 400 raquetes de papelão. Na ocasião, apresentou a iniciativa a Judy Murray, mãe de Andy Murray e uma das maiores referências mundiais no desenvolvimento do tênis de base.
Impressionada com o trabalho, Judy elogiou publicamente a brasileira e a definiu como “a Judy Murray do Brasil”, em reconhecimento à sua capacidade de ensinar tênis de forma lúdica, criativa e acessível, utilizando os recursos disponíveis para aproximar o esporte de crianças e jovens.
“Eu quero que as pessoas conheçam o que existe”, resume Helena. “Sem falsa modéstia, eu acho que é um trabalho genial só que são 28 anos. Não foi ontem.”
Helena Abreu é professora de educação física da rede municipal do Rio de Janeiro desde 1985. O lançamento de Tênis em Quadrinhos está previsto para junho de 2026.
