O tênis é um esporte individual. Então por que ninguém chega sozinho?

Uma reflexão sobre treinadores, pais, preparadores físicos, fisioterapeutas, patrocinadores e até os amigos que sustentam a carreira de um atleta.
O tênis é um dos poucos esportes em que toda a visibilidade recai sobre uma única pessoa ou, no máximo, sobre duas, no caso das duplas. Quando o torneio acaba, apenas um atleta levanta o troféu. Apenas um nome entra para a história. Mas será que esse esporte é de fato tão individual quanto parece?
Acompanhando o tênis de perto, especialmente o circuito juvenil, percebi algo que os holofotes raramente mostram: só é possível vencer tendo um grupo.
A equipe que ninguém vê
Uma comissão técnica básica no tênis já conta com treinador, fisioterapeuta, psicólogo e médico. Em alguns casos, preparador físico e nutricionista também integram o time. São profissionais que trabalham nos bastidores para que o atleta chegue à quadra no melhor estado possível, física e mentalmente.
Um exemplo recente e bonito veio de Roland Garros. Ao vencer o torneio, Mirra Andreeva, aos 18 anos, chamou a atenção pela maturidade ao agradecer publicamente sua equipe de psicólogos. Um gesto simples que revelou algo importante: por trás de uma campeã jovem, existe um trabalho silencioso e profundo de construção emocional. O tênis cobra muito do corpo. Mas cobra tanto quanto, ou até mais, da mente.
O dinheiro que ninguém fala
Além da comissão técnica, existe outro fator que raramente aparece nas transmissões: os custos.
O tênis exige muito dinheiro. Viagens, inscrições em torneios, equipamentos, hospedagem e alimentação. Tudo isso recai sobre o atleta e sua família, especialmente nas categorias de base, onde os patrocínios são escassos.
E quando digo escassos, estou sendo generosa. As empresas que apostam em atletas juvenis no Brasil são pouquíssimas. O retorno é incerto, o caminho é longo e o risco é alto. Por isso, a grande maioria das famílias assume sozinha essa responsabilidade financeira. E ela não é pequena.
Conversei recentemente com o pai de Guto Miguel, um dos jovens talentos do tênis brasileiro, e ele me contou algo que não saiu da minha cabeça: chegou a rodar o país em um Logan para sustentar os sonhos dos filhos dentro do esporte. Uma frase que resume, melhor do que qualquer estatística, o que significa apostar no tênis no Brasil.
Nos torneios Juvenis, pouquíssimos são patrocinados, e os que são, são por empresas menores, que resolveram acreditar em um atleta.
As famílias que viajam juntas
Quem frequenta os torneios juvenis sabe que as arquibancadas têm um perfil muito específico: pais, mães, irmãos e amigos, como eu pude ver na final do Roland Garros junior Series, onde leo Storck trouxe todos seus amigos para comemorar com ele. Famílias inteiras reorganizam rotinas, finanças e calendários para estar presentes. Eles não aparecem no placar. Não recebem troféus. Mas são parte fundamental da equipe, e qualquer atleta honesto sabe disso.
Recentemente, durante a Imersão para Treinadores promovida pela Liga Tênis 10 em São Paulo, tive a oportunidade de entrevistar Judy Murray, mãe de Andy Murray e Jamie Murray, dois ex-números 1 do mundo em suas respectivas modalidades.
Ao falar sobre a formação dos filhos, Judy trouxe uma perspectiva que raramente aparece quando se conta a história de grandes campeões. Ela relembrou que, nos primeiros anos, chegou a trocar cuidados com crianças por aulas de tênis para que os filhos pudessem continuar praticando o esporte. Também contou que passava noites estudando tudo o que envolvia o desenvolvimento de um atleta, da nutrição aos contratos, procurando entender se as pessoas ao redor dos filhos eram realmente as mais preparadas para ajudá-los a crescer.
Quando olhamos para os títulos de Andy e Jamie Murray, é fácil enxergar apenas os atletas. Mas existe também a história de uma mãe que dedicou anos de sua vida para criar as condições necessárias para que aqueles meninos tivessem uma chance de chegar ao topo. O esforço de quem está fora da quadra também faz parte da conquista.
Individual só no placar
O tênis é individual na pontuação. Mas, na construção de uma carreira, nada é solitário.
Cada vitória carrega o trabalho de um treinador que ficou até tarde ajustando o saque. A presença de um familiar que abriu mão de algo para estar na arquibancada. A orientação de um psicólogo que ajudou o atleta a lidar com a derrota anterior. O sacrifício financeiro de quem acreditou antes de qualquer resultado.
Quando o atleta levanta o troféu, levanta sozinho. Mas, para chegar até ali, precisou de muita gente.
E reconhecer isso não diminui nenhuma conquista. Na minha opinião, a torna ainda maior.
