Colunas

Wimbledon: o museu vivo que o tênis se recusa a fechar

POR IZADORA CAIRES06/07/2026
Wimbledon: o museu vivo que o tênis se recusa a fechar

Quase 150 anos de história, e Wimbledon segue escrevendo novos capítulos.

Enquanto escrevo este texto, Wimbledon está em pleno andamento. A 139ª edição do torneio começou em 29 de junho e termina em 12 de julho, e nas últimas horas Novak Djokovic protagonizou mais um capítulo da sua rivalidade eterna com a história: ao vencer o qualifier russo Roman Safiullin de virada, o sérvio chegou à sua 106ª vitória em Wimbledon, ultrapassando Roger Federer (105) e se tornando o homem com mais triunfos na competição, ainda atrás, porém, das 120 vitórias de Martina Navratilova, dona do recorde absoluto. É um lembrete oportuno de por que vale a pena parar e contar a história desse torneio: porque ela continua sendo escrita, partida a partida, ano após ano.

Não existe torneio de tênis, talvez não exista evento esportivo, que carregue tanto peso simbólico quanto Wimbledon. Fundado em 1877 pelo All England Lawn Tennis and Croquet Club, é o mais antigo dos quatro Grand Slams e o único disputado até hoje sobre grama, a superfície onde o próprio esporte nasceu. As mulheres entraram oficialmente na disputa em 1884, sete anos depois da primeira edição masculina, dando início a uma trajetória que produziria algumas das maiores rivalidades e recordes da história do esporte.

Uma tradição que se recusa a morrer

Wimbledon é, antes de tudo, um exercício de resistência à mudança, e é exatamente isso que o torna fascinante. Enquanto os outros três Grand Slams evoluíram para superfícies mais modernas (saibro em Roland Garros, piso duro no Aberto da Austrália e no US Open), o All England Club manteve a grama, mesmo sendo a superfície mais cara e trabalhosa de conservar, e mesmo com o jogo ficando cada vez mais rápido e imprevisível sobre ela.

O mesmo espírito rege o dress code: desde o século XIX, os jogadores são obrigados a entrar em quadra praticamente todos de branco, uma regra herdada da era vitoriana, quando manchas de suor em tecidos coloridos eram consideradas deselegantes. A exigência foi endurecida em 2014, ficando ainda mais restritiva, hoje cobre até os solados dos tênis e os cadarços. Roger Federer já foi impedido de jogar com solados laranja; Andre Agassi boicotou o torneio entre 1988 e 1990 justamente por discordar da regra, antes de voltar e vencer o título em 1992.

Mas nem toda tradição em Wimbledon é imutável. Em 2023, depois de anos de pressão de jogadoras e campanhas como a Address The Dress Code, além de críticas públicas de nomes como Billie Jean King e Judy Murray, o All England Club permitiu que as atletas usassem shorts por baixo do uniforme em tons escuros ou médios. A mudança foi pensada especificamente para aliviar a ansiedade de competir de branco durante o período menstrual, um ajuste pequeno no regulamento, mas com impacto real no bem-estar das jogadoras, como reconheceu a própria CEO do clube, Sally Bolton, ao dizer que a intenção era permitir que elas se concentrassem exclusivamente no desempenho.

Rituais que viraram parte do espetáculo

Wimbledon também cultiva hábitos que nada têm a ver com tênis, mas que são inseparáveis da experiência do torneio. Os morangos com creme são consumidos aos milhares durante as duas semanas de competição e se tornaram tão icônicos quanto o próprio troféu. A publicidade nas quadras é praticamente inexistente, verde e roxo dominam sozinhos o cenário, algo raro em qualquer evento esportivo de grande porte na atualidade (o que na minha opinião é perfeito)

Há também "The Queue", a fila para ingressos que virou folclore por si só: torcedores acampam por horas, às vezes por dias inteiros, na esperança de garantir um lugar nas arquibancadas no mesmo dia do jogo. E, no alto de Centre Court, o Royal Box segue recebendo membros da família real britânica e celebridades, reforçando a atmosfera semi-solene que nenhum outro Grand Slam tenta replicar.

O recorde que ninguém mais vai bater

Se existe uma partida que resume o exagero e a beleza bruta de Wimbledon, é o confronto entre o americano John Isner e o francês Nicolas Mahut, na primeira rodada de 2010. O que deveria ser um jogo de rotina na quadra 18 se transformou na partida mais longa da história do tênis: 11 horas e 5 minutos de jogo, disputados ao longo de três dias, com um quinto set que sozinho durou 8 horas e 11 minutos e terminou 70 a 68. O placar final — 6–4, 3–6, 6–7, 7–6, 70–68 e somou 183 games, mais do que qualquer outra partida já registrada. O placar eletrônico da quadra chegou a travar, incapaz de exibir números tão altos. Isner sacou 113 aces, Mahut 103; juntos, quebraram todos os recordes de saques diretos que existiam até então.

A partida foi tão extrema que mudou as regras do próprio esporte: Wimbledon introduziu, anos depois, um tie-break no quinto set em 12–12, e em 2022 os quatro Grand Slams padronizaram um tie-break de 10 pontos em 6–6 no set decisivo. Ou seja, o duelo Isner-Mahut é um recorde blindado por lei, nenhuma partida de Grand Slam poderá, sob as regras atuais, durar tanto tempo de novo.

Nomes que viraram sinônimo do torneio

No quesito recordes individuais, dois nomes dominam a conversa. No masculino, Roger Federer segue com oito títulos de simples, a marca máxima que Djokovic, sete vezes campeão, ainda persegue nesta própria edição de 2026. No feminino, ninguém chegou perto de Martina Navratilova, nona vezes campeã em Wimbledon e ainda hoje a maior vencedora de partidas da história do torneio, com 120 triunfos somando todas as suas campanhas.

É justamente esse jogo entre tradição imutável e recordes sempre em movimento que faz de Wimbledon um assunto inesgotável para quem cobre tênis ou para quem simplesmente gosta de bons enredos. A grama continua verde, o uniforme continua branco, os morangos continuam sendo servidos com creme. Mas, a cada julho, alguém encontra uma forma nova de entrar para a história de um lugar que insiste em parecer exatamente igual ao que era há 150 anos.