O fim de semana em que o Brasil ocupou quatro finais de Wimbledon

Um título, três vices e uma geração inteira em cena: o tênis brasileiro viveu em Londres um dos fins de semana mais fartos de sua história recente.
Foi preciso esperar quase seis décadas para ver o tênis brasileiro tão espalhado pela grama do All England Club. Entre sábado e domingo, 11 e 12 de julho, o país colocou representantes em quatro decisões diferentes de Wimbledon 2026: duas no juvenil, uma nas duplas femininas profissionais e uma no torneio de lendas. Voltou para casa com um título, três vices e a sensação de que a conta ainda vai ficar melhor.
Guto Miguel, o único a levantar a taça
O goiano Luis Guto Miguel, número 1 do ranking juvenil, chegou a Londres embalado pelo título de Roland Garros e saiu com mais um troféu de Grand Slam. Ao lado do esloveno Ziga Sesko, cabeças de chave 1, ele bateu os americanos Michael Antonius e Andrew Johnson por 6/1 e 6/4 na final de duplas juvenis masculinas. Foi apenas o segundo título brasileiro nessa chave em Wimbledon, o anterior tinha sido de Orlando Luz e Marcelo Zormann, em 2014.
O detalhe que dá contexto ao título: Guto passou a semana incomodado com a eliminação precoce na chave de simples, na segunda rodada. Segundo ele próprio contou depois da final, acordou no sábado com a cabeça em outro lugar, grato pela oportunidade, em vez de preso à derrota e disse ser gratificante fazer parte do momento que o tênis brasileiro vive.
Victória Barros e Naná Silva: uma final inédita, aos 16 anos
Antes de Guto entrar em quadra, duas adolescentes já tinham escrito a parte mais improvável da história. Victória Barros e Nauhany Leme da Silva, a Naná, ambas com 16 anos, viraram a primeira dupla 100% brasileira e a primeira parceria sul-americana a disputar uma final juvenil feminina em Wimbledon.
Cabeças de chave 1, elas encararam as tchecas Jana Kovackova e Katerina Zajickova, adversárias que chegavam à decisão com três Grand Slams juvenis seguidos e uma sequência de 38 sets sem derrota. As brasileiras encerraram essa invencibilidade e levaram o jogo ao limite: perderam por 7/6(7), 6/7(5) e 10-6, em 1h53 de partida decidida em dois tie-breaks e um match tie-break equilibrado até o 4-4.
Ficou o vice e um bélissimo lugar na história. Com o feito, Victória e Naná se juntam a Maria Esther Bueno e Luisa Stefani como as únicas brasileiras a disputar uma decisão na grama inglesa. Hoje, Victória é a 4ª e Naná a 7ª do ranking mundial juvenil da ITF.
Luisa Stefani, a poucos games de um sonho antigo
No domingo, a paulistana Luisa Stefani foi ao Court 1 em busca do primeiro título de Grand Slam em duplas femininas da carreira. Ao lado da canadense Gabriela Dabrowski, ela parou na chinesa Guo Hanyu e na francesa Kristina Mladenovic, que venceram por 6/3 e 7/5.
Era a primeira final de Slam de Stefani na modalidade ela já tem o troféu de duplas mistas do Australian Open de 2023, com Rafael Matos. A parceria com Dabrowski, aliás, é das mais consistentes do circuito: chegou pelo menos à semifinal nos três Grand Slams disputados no ano, com três títulos na temporada. Em Wimbledon, a única brasileira campeã de duplas femininas segue sendo Maria Esther Bueno, pentacampeã entre 1958 e 1966.
Bruno Soares e o duelo com os Bryan
A quarta final brasileira veio da chave de lendas. Bruno Soares, ex-número 2 do mundo em duplas e dono de seis títulos de Grand Slam, reencontrou o velho parceiro britânico Jamie Murray e passeou pela fase de grupos, com três vitórias em três jogos. Na decisão, porém, os irmãos Bob e Mike Bryan foram mais eficientes nos momentos decisivos e fecharam em 6/4 e 7/6(1).
Soares, que também trabalha como comentarista na cobertura do torneio, acompanhou de perto a campanha de Stefani nos dias anteriores e brincou pedindo que ela vingasse a final de duplas mistas que ele mesmo perdeu para Mladenovic anos atrás. Não deu, mas o roteiro do fim de semana rendeu bem mais alegria do que frustração.
O que fica? Alegria e esperança!
Quatro finais, um título, três vices e um recado difícil de ignorar: entre o veterano que ainda joga por diversão, a geração que já bate de frente com o topo do circuito e as adolescentes que acabaram de estrear em decisões de Grand Slam, o Brasil não depende mais de um nome só. Depois de João Fonseca cair na terceira rodada da chave principal, foram Guto, Naná, Victória, Stefani e Bruno Soares que fizeram do fim de semana londrino um dos mais fartos da história recente do tênis nacional.
