O tênis abandonado: como as duplas foram jogadas para escanteio, mesmo dando medalha ao Brasil

Medalha olímpica e Grand Slam brasileiros vieram das duplas de tênis. O problema é que ninguém vê
O tênis brasileiro tem uma história recente de sucesso que quase ninguém enxerga. Não é exagero dizer que, nas últimas duas décadas, é nas duplas que o país colheu seus resultados mais consistentes, e é justamente essa modalidade que o circuito profissional, a mídia e o mercado publicitário tratam como apêndice do "tênis de verdade".
As medalhas e títulos que o Brasil deve às duplas
Quando Luisa Stefani e Laura Pigossi subiram ao pódio em Tóquio 2020, fizeram algo que nenhum brasileiro havia feito antes: colocar o tênis nacional numa medalha olímpica. Formaram dupla de última hora, entraram nos Jogos por desistência de outras equipes e, ainda assim, salvaram quatro match points para vencer as russas Vesnina e Kudermetova. Foi o primeiro pódio olímpico da história do tênis brasileiro não veio do simples, veio das duplas.
Stefani seguiu construindo uma carreira que poucos tenistas brasileiros, homens ou mulheres, algum dia tiveram: chegou ao top 10 do mundo em duplas, venceu o Australian Open de duplas mistas em 2023, conquistou ouro pan-americano e, em 2025, tornou-se a primeira mulher brasileira a se classificar para o WTA Finals e a segunda a chegar a uma final de Wimbledon em 56 anos a primeira desde Maria Esther Bueno.
Antes dela, Marcelo Melo e Bruno Soares já haviam levado o Brasil ao topo do ranking mundial de duplas e a títulos de Grand Slam. São conquistas de nível olímpico, histórico, comparável a qualquer coisa que o país tenha feito em outros esportes individuais. E, mesmo assim, praticamente invisíveis fora do nicho de quem já acompanha tênis.
A distância abissal nos prêmios
O retrato mais cru dessa desvalorização está no dinheiro. No US Open 2025, torneio que bateu recorde histórico com US$ 90 milhões em premiação total, os campeões de simples levaram US$ 5 milhões cada um. As duplas campeãs, mesmo com aumento "histórico" anunciado com orgulho pela organização, receberam US$ 1 milhão, só que para a dupla toda, ou seja, US$ 500 mil por jogador. Uma diferença de dez vezes para o mesmo troféu de Grand Slam, na mesma quinzena, no mesmo estádio.
E olha que essa foi tratada como uma vitória: a premiação de duplas masculinas e femininas do US Open subiu 23% em 2025, depois de anos de estagnação. Ou seja, o "avanço" na valorização das duplas ainda deixa os jogadores ganhando uma fração pequena do que ganha quem joga sozinho, em torneios menores, a disparidade costuma ser ainda maior, e fora dos quatro Grand Slams a premiação de duplas muitas vezes mal cobre os custos de viagem, treinador e fisioterapeuta de uma temporada inteira.
Visibilidade zero, patrocínio incerto
Não é só question de prêmio. É de câmera. Jogos de duplas raramente vão para a quadra principal, raramente têm transmissão completa, raramente aparecem no resumo do dia mesmo quando envolvem um brasileiro no top 10 do mundo. Circuitos de streaming e emissoras tradicionais concentram o sinal em simples masculino e feminino; duplas costumam ser tratadas como conteúdo de segunda categoria, disputado em quadras secundárias e sem cobertura de estatísticas equivalente.
Essa invisibilidade tem efeito direto no bolso: sem exposição, não há patrocinador disposto a pagar o que paga por um tenista de simples ranqueado de forma parecida. O especialista em duplas vive de um mercado publicitário que praticamente não olha para ele, mesmo levando resultados que o simples brasileiro, há anos, não entrega.
O ciclo vicioso e preguiçoso
O argumento oficial do circuito é sempre o mesmo: duplas atraem menos público, logo merecem menos investimento. Mas é um raciocínio que se autoconfirma não se investe em transmissão, patrocínio ou visibilidade, e depois se usa a falta de audiência (que a própria falta de investimento produziu) como justificativa para continuar não investindo. Ninguém testou seriamente o que aconteceria se as duplas tivessem o mesmo tratamento editorial dado ao simples.
O resultado é um esporte que trata sua própria modalidade mais acessível em que jogadores mais velhos, mais baixos ou fora do padrão físico do simples ainda competem no auge mundial como secundária, e que despreza justamente o único lugar em que países como o Brasil, sem tradição recente de grandes campeões de simples, conseguem competir de igual para igual com as potências do tênis mundial.
Enquanto isso não mudar, o Brasil vai continuar tendo medalhistas olímpicos, campeões de Grand Slam e ex-número 1 do mundo em duplas e a maior parte do país vai continuar sem saber o nome deles, e posteriormente, ainda falarão sobre carência de ídolos. Será que o Brasil é mesmo carente de ídolos, ou nós só fechamos os olhos para eles?
