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A nova política de elegibilidade da WTA reacende a discussão sobre sexo biológico e competição justa no esporte de elite

POR IZADORA CAIRES11/08/2026
A nova política de elegibilidade da WTA reacende a discussão sobre sexo biológico e competição justa no esporte de elite
Foto de IOC/Greg Martin

O que a nova regra da WTA revela sobre o lugar do esporte feminino num debate que ninguém sabe mais discutir com calma

Em 20 de julho de 2026, a WTA anunciou uma mudança histórica: a partir de então, toda tenista que quiser disputar o circuito profissional feminino precisa passar por um teste genético único, que verifica a presença do gene SRY (localizado no cromossomo Y). A regra substituiu a política de 2024, que permitia a participação de mulheres trans desde que mantivessem a testosterona abaixo de 2,5 nmol/L por pelo menos dois anos. Na prática, a nova norma veta atletas trans do tênis feminino de elite, baseando a elegibilidade no sexo biológico.

É importante notar um detalhe que costuma passar batido: segundo a própria WTA, nenhuma mulher trans chegou a competir no circuito sob a política anterior. Ou seja, essa não é uma medida reativa a um “problema” concreto que já vinha acontecendo, é uma decisão preventiva, baseada em avaliação de risco competitivo.

O que diz quem joga

A número 1 do mundo, Aryna Sabalenka, resumiu bem o argumento central de quem defende a restrição, em entrevista a Piers Morgan: disse não ter “nada contra” pessoas trans, mas considerar injusto que mulheres, depois de uma vida inteira de treino, tenham que enfrentar alguém que passou pela puberdade masculina, com todas as vantagens estruturais que isso traz, força, potência, velocidade.

Martina Navratilova, uma das maiores tenistas da história e voz historicamente ligada às pautas LGBT (foi pioneira em assumir publicamente sua homossexualidade em plena carreira), comemorou a nova política, defendendo que o circuito feminino precisa continuar sendo, de fato, um espaço exclusivo para mulheres cis competirem entre si no mais alto nível.

A assimetria com o circuito masculino não é acidente

Um dos pontos mais usados por quem critica esse tipo de política é: “por que não existe debate equivalente no circuito masculino?” A resposta não é hipocrisia ou preconceito seletivo, é fisiologia. Um homem trans em terapia hormonal atinge níveis de testosterona compatíveis com os de homens cis, sem ultrapassá-los; ele entra em pé de igualdade biológica com seus adversários. Já uma mulher trans que passou pela puberdade masculina antes da transição carrega, segundo diversos estudos, vantagens estruturais (massa óssea, capacidade cardiopulmonar, tamanho de coração e pulmões, estrutura muscular) que a supressão hormonal, mesmo por anos, não reverte totalmente. Por isso a discussão se concentra no esporte feminino: é ali que existe uma assimetria biológica relevante para o resultado da competição, não no masculino.

Contra a exclusão no esporte não é o mesmo que ser contra pessoas trans

Aqui está o ponto que mais precisa ser dito com clareza: defender que o esporte feminino de elite continue sendo um espaço competitivo justo para mulheres cis não equivale a negar a identidade, a dignidade ou os direitos de pessoas trans em nenhum outro aspecto da vida. São questões separadas. Uma coisa é reconhecer o direito de alguém viver, trabalhar, amar e ser tratado com respeito como a pessoa que é. Outra, bem diferente, é discutir critérios de elegibilidade em uma categoria esportiva criada justamente para compensar uma diferença física entre sexos, a própria existência de “categorias femininas” no esporte só faz sentido porque essa diferença existe.

Essa distinção importa porque a bandeira da “competição justa” tem sido, em muitos contextos, sequestrada por gente que não está preocupada de fato com igualdade esportiva, e sim usando o tema como pretexto para discurso de ódio generalizado contra pessoas trans. Isso é um problema real, e vale reforçar: discordar da participação de mulheres trans no alto rendimento feminino não dá endosso a ninguém que use esse argumento para desumanizar, atacar ou negar direitos básicos de pessoas trans fora das quadras.

O que diz a ciência (e por que o debate não está fechado)

Vale reconhecer que a ciência não é unânime aqui. Uma revisão sistemática de 2017 não encontrou evidência direta e abrangente de vantagem atlética de mulheres trans sobre cis em todos os estágios de transição. Pesquisadores brasileiros, como o professor Bruno Gualano (USP), argumentam que decisões deveriam ser tomadas modalidade a modalidade, com base em evidência robusta, e não em uma regra universal, até porque a amostra de atletas trans de elite é pequena demais para generalizações. Do outro lado, cientistas que criticam políticas mais permissivas apontam estudos indicando que atletas que passaram pela puberdade masculina mantêm vantagens mensuráveis mesmo após um ano ou mais de supressão de testosterona. É um debate real, com dados limitados dos dois lados, e a decisão da WTA reflete uma escolha de precaução diante dessa incerteza, não um consenso científico fechado.