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Ser boa não basta: no tênis feminino, financeiramente, carisma e imagem valem tanto quanto títulos

POR IZADORA CAIRES11/08/2026
Ser boa não basta: no tênis feminino, financeiramente,  carisma e imagem valem tanto quanto títulos
Aryna Sabalenka no WTA 1.000 de Toronto — Foto: John E. Sokolowski-Imagn Images TPX IMAGES OF THE DAY

Enquanto o tênis feminino segue pagando menos e investindo pouco em cobertura, atletas como Aryna Sabalenka mostram que carisma, simpatia e presença nas redes se tornaram tão lucrativos quanto vencer troféus

Aos 28 anos, a bielorrussa Aryna Sabalenka construiu algo raro no esporte: uma combinação entre dominação técnica e uma personalidade que transborda os limites da quadra de tênis. Enquanto os números do ranking mostram uma atleta praticamente inalcançável, é o seu jeito espontâneo, o sorriso fácil e a autenticidade nas entrevistas que transformaram Sabalenka em um dos rostos mais queridos do circuito mundial.

Uma liderança histórica

Sabalenka chegou ao topo do ranking mundial da WTA em outubro de 2024 e, desde então, vem sustentando um dos reinados mais longos da história recente do tênis feminino. A tenista já soma mais de 100 semanas na liderança do ranking, sendo 92 delas consecutivas, uma marca que a coloca ao lado de nomes lendários como Steffi Graf, Serena Williams, Martina Navratilova e Justine Henin. Atualmente, ela mantém uma vantagem expressiva sobre a segunda colocada, a cazaque Elena Rybakina.

Além disso, Sabalenka encerrou tanto 2024 quanto 2025 como número 1 do ranking ao final da temporada, feito alcançado por apenas um punhado de jogadoras neste século. Com quatro títulos de Grand Slam na carreira e dezenas de troféus acumulados, seu domínio esportivo é inquestionável.

O carisma como marca registrada

Mas o que faz de Sabalenka um fenômeno que vai além dos números é a forma como ela se relaciona com o público. Suas reações espontâneas em quadra, o bom humor nas coletivas de imprensa e a proximidade que demonstra com fãs e jornalistas criaram uma conexão genuína com o público internacional. Ela não esconde suas emoções, comemora com intensidade, ri de si mesma quando erra e fala abertamente sobre as pressões da rotina insana do circuito profissional, o que a humaniza aos olhos de quem a acompanha.

Essa autenticidade rendeu a ela reconhecimento também fora das quadras: em 2026, Sabalenka foi eleita a Esportista do Ano pelo Laureus World Sports Awards, uma confirmação de que sua influência ultrapassa o universo do tênis e alcança o esporte mundial como um todo.

Consistência que impressiona

Curiosamente, mesmo sem conquistar um Grand Slam em 2026, Sabalenka seguiu como a jogadora mais regular do circuito, provando que sua liderança não depende de um único título, mas de uma constância impressionante ao longo de toda a temporada. Ela já acumula mais de 100 vitórias em nível de tour como número 1 do mundo, sendo apenas a nona mulher na história a atingir essa marca.

O noivo brasileiro e o “sotaque” nas quadras

Parte dessa conexão com o público tem um endereço bem definido: o Brasil. Desde 2024, Sabalenka namora o empresário paulista Georgios Frangulis, fundador da Oakberry, rede de açaí que hoje tem mais de 900 lojas espalhadas pelo mundo. Em março de 2026, ele a pediu em casamento durante um período de folga da tenista, e ela anunciou o noivado nas redes sociais com a legenda “Eu e você para sempre”. Frangulis, torcedor do Corinthians e apaixonado por automobilismo, virou presença constante nas arquibancadas dos torneios da namorada.

O relacionamento também deixou marcas curiosas no vocabulário de Sabalenka. Não é incomum vê-la soltando xingamentos em português em momentos de tensão dentro de quadra, episódios que viralizam e divertem o público brasileiro. Em entrevista à ESPN Brasil, ela chegou a brincar que é “fluente” em praguejar no idioma, afirmando que a expressão até soa melhor em português do que em russo. Segundo a própria tenista, esses momentos de descontração fortalecem sua relação com os fãs brasileiros, que ela descreve como barulhentos e apaixonados, e que já viraram parte da energia que ela busca dentro de quadra.

Por que o carisma pesa tanto quanto o resultado

Esse tipo de proximidade não é só um detalhe simpático: no circuito feminino, carisma virou praticamente uma ferramenta de trabalho tão importante quanto o forehand. O tênis feminino historicamente recebe menos investimento, menos cobertura de mídia e prêmios menores do que o masculino em boa parte dos torneios, uma discrepância que atletas e especialistas apontam há anos. Nesse cenário, construir uma marca pessoal forte, com personalidade, humor e presença nas redes sociais, passou a ser uma via real de geração de renda para as tenistas, muitas vezes complementando ou até superando o que elas ganham em premiação.

Sabalenka é um exemplo claro dessa lógica. Além dos milhões em prize money do circuito, ela transformou sua imagem em contratos publicitários robustos, incluindo o papel de embaixadora da própria Oakberry, marca do noivo ligada ao universo do bem-estar e da alimentação saudável, um dos setores que mais cresce entre patrocínios esportivos hoje. O mercado wellness, aliás, tem sido um dos preferidos das atletas para parcerias, já que dialoga diretamente com a imagem de saúde, disciplina e vitalidade que o público associa a elas.

É importante notar que essa leitura não é consenso: outras vozes no tênis argumentam que o problema central segue sendo estrutural, diferença de premiação, menos horários nobres de transmissão e menor investimento institucional, , e que depender de carisma para equilibrar a conta pode mascarar, em vez de resolver, essa desigualdade. Ainda assim, na prática, o “pacote completo”, jogo de alto nível somado a uma personalidade que conecta com o público, se tornou um dos caminhos mais eficazes para uma tenista maximizar sua renda e relevância, e Sabalenka domina esse jogo dentro e fora das quadras.