Os Masters/WTAs 1000 de duas semanas são uma fórmula que definitivamente não deu certo para ninguém

Nas duas últimas temporadas, boa parte dos torneios Masters/WTA 1000 passaram de uma semana para 10 a 14 dias de disputa.
A mudança aconteceu com Madri e Roma, antes de Roland Garros, Toronto/Montréal e Cincinnati, antes do US Open, e com o Masters 1000 de Xangai, na reta final da temporada. Antes, isso acontecia apenas com Indian Wells e Cincinnati, que tradicionalmente ocupam o mês de março no calendário.
O objetivo dos torneios, da ATP e da WTA era evidente: ter mais dias de grandes torneios e, consequentemente, ganhar mais dinheiro com bilheteria, audiência e publicidade. A expectativa das instituições do tênis era ter suas principais estrelas por mais tempo em evidência, mas já podemos dizer que o resultado foi o oposto.
O Masters 1000 canadense, por exemplo, é muito prejudicado. Após uma longa gira europeia, os principais tenistas do circuito não estão dispostos a se desgastar por 6 semanas na América do Norte (três semanas contando os dois Masters, uma de descanso e duas do US Open). Portanto, pular o Canadá e ganhar 10 dias é muito valioso no calendário atual dos grandes tenistas.
Entretanto, Cincinnati, que teoricamente marcaria o retorno das principais estrelas, esse ano não contou com Jannik Sinner nem Carlos Alcaraz, por lesões dos dois. Nesse caso, o desgaste é anterior, e nesse ponto chegamos a Madri e Roma.
É claro, Alcaraz se lesionou antes desses torneios, mas olhemos para Sinner. O italiano venceu os 5 primeiros Masters 1000 da temporada. Em Madri e Roma, jogou quatro semanas consecutivas e venceu todos os jogos. Porém, quando chegou em Roland Garros como o grande favorito, sentiu o físico na segunda rodada, quando estava prestes a vencer sua partida, e foi eliminado precocemente. Agora, ele não joga o US Open e fecha um ano teoricamente dominante com apenas um título de Grand Slam, em Wimbledon.
Nessas duas semanas de torneios, há um dia de descanso entre os jogos. Entretanto, como já afirmado por nomes como Carlos Alcaraz e Alexander Zverev, o dia de descanso entre os jogos não tira o desgaste físico nem mental dos atletas, se comparado aos dias com semanas livres no calendário.
Sem muitas das estrelas, a audiência e apelo dos torneios também é perdida. Neste cenário, temos torneios longos, sem os nomes que mais atraem audiência, e os torneios perdem a imagem de muitos de seus grandes expoentes. Ruim para as estrelas, para a audiência e também para os torneios, por mais que eles ganhem mais dias de bilheteria (o que parece ser o único fator que economicamente fez sentido com essa mudança).
Os efeitos negativos não param por aí e afetam ainda mais elementos na hierarquia do tênis mundial. Os torneios menores, especialmente os 250, mas também os 500, são prejudicados. Se os grandes nomes gastam mais semanas com Masters/WTAs 1000, não há motivo para jogarem muitos outros torneios de nível inferior.
Os tenistas no geral também são prejudicados. Em março (Indian Wells e Miami), maio (Madri e Roma) e agosto (Canadá e Cincinnati) há uma janela sem torneios 250 e 500, essenciais para muitos tenistas jogarem em um nível maior (especialmente os duplistas) e para se formar novos campeões, o que poderia gerar apelo e identificação do público com novos nomes.
Além disso, se um tenista perde na estreia de Montréal, por exemplo, são mais de 7 dias sem jogar, muitas vezes fora de seu continente, o que também aumenta as despesas.
Já faz um tempo que o presidente da ATP, Andrea Gaudenzi, propõe a diminuição dos ATPs 250. Em 2028, haverá um novo Masters 1000, de uma semana na Arábia Saudita, provavelmente em fevereiro. Portanto, o calendário passará por mudanças estruturais maiores, que afetarão, por exemplo, o Rio Open. Há uma grande expectativa por como a ATP reformulará um calendário sem brechas.
Ao mesmo tempo, a WTA já institucionaliza que os 250 tenham menos estrelas, limitando tenistas do top 30 de disputarem mais de um torneio desse nível por ano. Estes torneios, portanto, se hierarquizam em divisões. Com isso, muitos torneios 250 ao redor do mundo ou são inviáveis ou têm menos apelo, seja na WTA, seja na ATP.
Com Austrália em janeiro, Oriente Médio em fevereiro, double sunshine em março, gira de saibro em abril e maio, gira de grama em junho, gira norte-americana em agosto e setembro, e depois a reta final do ano, com dois Masters, Finals e finais da Copa Davis/Billie Jean King Cup, praticamente não há brechas para torneios menores, para descansos e para opções no calendário. Parece evidente que as principais estrelas pularão Masters 1000, ao mesmo tempo que os ATPs/WTAs 250 ficarão mais fracos. Menos apelo para todos os torneios, independente do nível.
Não sabemos o quanto a pressão dos jogadores pode mudar esse cenário. O calendário de 2028 é uma incógnita, mas a tendência é que esse cenário se mantenha pelo menos por alguns anos, considerando os acordos econômicos com os torneios durando mais dias. Porém, não enxergo possibilidades dos Masters/WTAs 1000 de duas semanas se sustentarem por muito tempo, por mais que as instituições busquem cada vez mais restringir os grandes nomes somente aos grandes torneios.
