Mirra Andreva: a prova de que talento sem cabeça não ganha Grand Slam.

Dos surtos de raiva ao título em Paris, a trajetória de Mirra Andreeva prova que a cabeça se treina como o saque, e que ignorar isso é negligência.
Mirra Andreeva deu a melhor resposta possível a esse preconceito. Em junho, ao vencer Roland Garros aos 19 anos, a mais jovem campeã em Paris desde Monica Seles, ela parou o discurso para agradecer à psicóloga, Alexis, com nome, diante do mundo. Disse que usou nas duas semanas tudo o que aprendeu com ela. Depois agradeceu a si mesma por ter enfrentado tantos demônios internos. Não pediu desculpas, não usou eufemismo, não escondeu nada atrás da palavra "equipe". E fez muito bem.
Quem acompanha Mirra desde os 15 anos sabe do que ela estava falando. A adolescente prodígio tinha um tênis brilhante e um temperamento que explodia em quadra: raquetes voando, frustração com árbitros, choro no meio dos jogos. Até a técnica, Conchita Martínez, admitiu à AP que a atitude dela é difícil. Em março deste ano, em Indian Wells, contra Katerina Siniakova, ela saiu da quadra em lágrimas. Três meses depois, levantava o troféu em Paris.
O forehand não mudou nesse intervalo. A cabeça, sim. E isso não aconteceu por milagre, maturidade espontânea ou "força de vontade". Aconteceu com trabalho técnico, feito por uma profissional. Ferramentas concretas, como imaginar uma placa de "pare" quando os pensamentos disparam. Conversas antes da semifinal e da final. E uma ideia simples que Mirra transformou em escolha: dá para decidir quem você quer ser em quadra. Ela decidiu ser lutadora.
Aqui está o ponto que muita gente ainda não entendeu: saúde mental não é o oposto de alta performance. É condição para ela. Ninguém acha estranho um tenista ter preparador físico, fisioterapeuta, nutricionista. Ninguém chama de fraco quem trata uma lesão no joelho. Então por que ainda soa como admissão de culpa cuidar da mente, o único músculo que joga todos os pontos?
O tênis é talvez o esporte mais cruel nesse aspecto. Você está sozinho, sem companheiro para dividir o peso, sem técnico para pedir tempo, com horas de jogo para remoer cada erro. Coloque nisso uma menina que saiu da Sibéria, passou por Sochi, foi morar na França, entrou no top 10 antes da maioridade e carrega a expectativa de um país. Esperar que ela resolva tudo sozinha, na base do "segura a onda", não é exigência. É negligência.
E a história de Mirra mostra outra coisa importante: saúde mental não se resolve com um título. Depois de Paris, ela contou que precisou parar e que não queria nem ver raquetes. Antes do US Open, disse que o conselho que daria a si mesma aos 16 anos seria ser mais gentil consigo. É um trabalho contínuo, com recaídas, como qualquer outro aspecto do jogo.
Iga Swiatek abriu esse caminho ao viajar com psicóloga em tempo integral. Naomi Osaka pagou um preço alto por falar do assunto quando o circuito ainda não queria ouvir. Que a próxima geração, inclusive a brasileira, aprenda com elas cedo, e não depois da primeira crise. Nas escolinhas, nas federações, nos clubes: psicólogo precisa estar no planejamento desde o início, não no plano B.
Mirra Andreeva não venceu Roland Garros apesar de cuidar da cabeça. Venceu porque cuidou. Quem ainda acha isso fraqueza está, sem perceber, torcendo pela derrota.
